"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

sexta-feira, 9 de julho de 2010

José Lins do Rego – Obras: uma descrição bibliográfica e bibliófila.




Engenho de açúcar – gravura de Rugendas

Os romances de José Lins do Rego são agrupados em três temáticas diferentes:

Ciclo da cana-de-açúcar:

José Lins escreveu cinco livros a que nomeou "Ciclo da cana-de-açúcar", numa referência ao papel que nele ocupa a decadência do engenho açucareiro nordestino, visto de modo cada vez menos nostálgico e mais realista pelo autor: Menino de Engenho (1932), Doidinho (1933), Bangüê (1934), O Moleque Ricardo (1935), e Usina (1936). Aos quais acrescentaria Fogo morto (1943).


A cana-de-açúcar

Ciclo do misticismo e do cangaço reúne duas obras: Pedra Bonita (1938) e Cangaceiros (1953).

Não se enquadrando em qualquer destas temáticas temos: Pureza (1937); Riacho doce (1939) e Eurídice (1947).

Otto Maria Carpeaux fez uma súmula de sua obra: “A obra de José Lins do Rego é profundamente triste. É uma epopéia da tristeza, da tristeza da sua terra e da sua gente, da tristeza do Brasil (...) Há na sua obra a consciência de que tudo está condenado a adoecer, a morrer, a apodrecer. Há a certeza da decadência dos seus engenhos e dos seus avós, de toda essa gente que produziu, como último produto, o homem engraçado e triste que lhe erigiu o monumento. É grande literatura.”


Engenho de açúcar – O trabalho no engenho

Na obra de José Lins do Rego, a parte mais importante é a que corresponde ao chamado ciclo da cana-de-açúcar. Partindo de experiências autobiográficas – a vida no engenho do avô – o escritor encontra na memória o fundamento de seus romances, nos quais fixa melancolicamente a decadência do engenho-de-açúcar, substituído como modo de produção pela fábrica. Participante, ou pelo menos observador, deste processo, José Lins do Rego esforça-se para registrar a verdadeira revolução social desencadeada pela nova tecnologia de produção açucareira que, em pouco tempo, levou um grande número de senhores de engenho a mais completa bancarrota económica.

Pesou também sobre Lins do Rego, a influência de Gilberto Freyre, cujo “Manifesto regionalista”, de 1926, propugnava por uma arte voltada para as questões específicas da sociedade nordestina. No prefácio de Usina, o próprio José Lins do Rego delimitou o ciclo da cana-de-açúcar:
“A história desses livros é bem simples: comecei querendo apenas escrever umas memórias que fossem as de todos os meninos criados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um pedaço da vida o que eu queria contar. Sucede, porém, que um romancista é muitas vezes o instrumento apenas de forças que se acham escondidas no seu interior.”


 Engenho de açúcar e casa do proprietário – o “coronel”

Depois de Menino de Engenho, veio Doidinho e em seguida Bangüê. Carlos de Melo havia crescido, sofrido e fracassado. Mas, o mundo do Santa Rosa não era só Carlos de Melo. Ao lado dos meninos de engenho havia os que nem o nome de menino podiam usar, os chamados “moleques de bagaceira”, os Ricardos.

Ricardo foi viver por fora do Santa Rosa, a sua história que é tão triste quanto a de seu companheiro Carlos. Foi ele de Recife a Fernando de Noronha. Muita gente achou-o parecido com Carlos de Melo. Até podia ser que se parecessem, pois viveram tão juntos um do outro, foram íntimos na infância, tão apegados, que não seria de espantar que Ricardo e Carlinhos se assemelhassem, muito pelo contrário.

Depois de Moleque Ricardo veio Usina, a história do Santa Rosa, arrancado de suas bases, espatifado, com moendas gigantes devorando a cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas várzeas. Carlos de Melo, Ricardo e o Santa Rosa acabaram-se, têm o mesmo destino, estão intimamente ligados pois a vida de um tem muito da vida do outro. Uma grande melancolia acaba por os envolver de sombras. Carlos foge, Ricardo morre pelos seus e o Santa Rosa perde até o nome ... escraviza-se.


Trabalho num engenho de açúcar no Brasil colonial


Principais obras:

Menino de Engenho (1932)
Doidinho (1933)
Bangüê (1934)
O Moleque Ricardo (1935)
Usina (1936)
Pureza (1937)
Pedra Bonita (1938)
Riacho Doce (1939)
Água-mãe (1941)
Fogo Morto (1943)
Eurídice (1947)
Cangaceiros (1953)
Meus Verdes Anos (1953)
Histórias da Velha Totonia (1936)
Gordos e Magros (1942)
Poesia e Vida (1945)
Homens, Seres e Coisas (1952)
A Casa e o Homem (1954)
Presença do Nordeste na Literatura Brasileira (1957)
O Vulcão e a Fonte (1958)
Dias Idos e Vividos (1981)


Descrição das obras (1)



José Lins do Rego – “O Menino do Engenho”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, s.d.(1932). 2ª edição. Capa de Cicero Dias.. Encadernação original brochura. 199 págs. (R$ 100,00)
Tiragem: 2.000 exemplares (1ª edição) e 5.000 (2ª edição).
(nenhum exemplar da 1ª edição encontrado em venda)

Prémio da Fundação Graça Aranha (1932).

Narrado em 1ª pessoa por Carlos Melo (personagem), que aponta as suas tensões sociais envolvidas num ambiente de tristeza e decadência, é o primeiro livro do ciclo da cana-de-açúcar. Publicado em 1932, Menino do Engenho é a estreia em romance de José Lins do Rego e já traz os valores que o consagraram na Literatura Brasileira.

É a história típica, natural e sem retoques de uma criança, Carlos, órfão de pai e mãe, que, aos oito anos de idade, vem viver com o avô, o maior proprietário de terras da região - coronel José Paulino.

Carlos é criado sem a repressão familiar e mesmo sem os cuidados e atenções que lhe seriam necessários diante das experiências da vida. Vê o mundo, aprende o bem e o mal e chega a uma provável precocidade acerca dos hábitos que lhe eram "proibidos", mas inevitáveis de serem adquiridos.

Pela ausência de orientação, toma-se viciado, corrompido, aos 12 anos de idade. Além dos problemas íntimos do menino, desorientado para a vida e para o sexo, temos a análise do mundo em que vivia, visto por Carlos, que é o narrador-personagem.

Carlos vê o avô como um verdadeiro Deus, uma figura de grandiosidade inatingível. O engenho é o mundo, um império, de onde o coronel José Paulino dirige e guia os destinos de todos. E, em consequência, Carlos considera-se, e é considerado pelos servos, escravos e agregados, o “coronelzinho” cujas vontades têm que ser rigorosamente realizadas.

Descreve com emoção a vida dos escravos, a senzala, o sofrimento e os castigos do “tronco”. Uma cena a ser destacada é a “enchente” do rio, vista com admiração e susto por Carlos, constituindo uma descrição de grandiosidade bíblica.

Também vêm à tona as superstições e crendices comuns entre as camadas populares, como a do “lobisomem”.

O romance tem como cenário a região limítrofe entre Pernambuco e Paraíba, o que pode ser deduzido pelas descrições da paisagem e da vida dos engenhos de açúcar.

Os bandidos e cangaceiros, comuns na região, são mostrados como única forma de reacção social de um povo oprimido.



José Lins do Rego – “Doidinho”. Romance.
Rio de Janeiro, Ariel Editora, Ltda, s.d. (1933). 1ª edição. Capa de Santa Rosa. Encadernação original brochura. 326 pp. (R$ 250,00 / 420,00)
Tiragem: 2.000 exemplares (1ª edição)

Doidinho, romance de José Lins do Rego lançado em 1933, é uma espécie de continuação do clássico “Menino de Engenho”, publicado um ano antes. O título é o apelido de Carlos Melo, ou Carlinhos, um garoto de 12 anos que narra suas experiências como aluno de um rigoroso internato e cujo grande sonho é retornar ao velho engenho de seu avô. Lá, ele faz inúmeras descobertas sobre a vida, discutindo e debatendo temas tais como a lealdade, a amizade, a traição, intriga, sexo, injustiças e muito mais, sempre sob o olhar atento do director, sempre pronto a impingir castigos físicos.

Nas palavras de Antonio Carlos Villaça, é a segunda parte de Menino de Engenho, mas com uma densidade ficcional que revela as dimensões poderosas de Lins do Rego como romancista e como criador.



José Lins do Rego – “Banguê”. Romance.
“Ciclo da Cana do Assucar III”
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1934. 1ª edição. 310 pp. (R$ 50,00 / 110,00)
Tiragem: 10.000 exemplares (1ª edição)



Nesta obra de transição o autor procura retratar a paisagem local, superando o predomínio da memória.



José Lins do Rego – “O Moleque Ricardo”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1935. 1ª edição. Encadernação original brochura.. 285 pp. (R$ 50,00)
Tiragem: 4.000 exemplares (1ª edição) e 2.000 (2ª edição).

O Moleque Ricardo faz parte das chamadas obras independentes do autor, juntamente com Pureza e Riacho Doce, segundo certos analistas, pois que apresenta traços de ligação com os dois ciclos: o da cana-de-açúcar e o do cangaço.

Mas deve ser considerada, até pela sua sequência de personagens com fazendo parte do ciclo de cana-de-açúcar.

O Moleque Ricardo é o romance mais político de José Lins. Nesta obra, a realidade nordestina está retratada no personagem Ricardo, que, de moleque e serviçal de engenho, passa a proletário urbano. É o romance satélite do ciclo da cana-de-açúcar. Sob o ponto de vista cronológico, fica entre Banguê e Usina. É a história de um daqueles moleques de eito, aparecidos em Menino de Engenho, e que se destaca dos companheiros, abandona Santa Rosa e vai para a cidade com a intenção de mudar de vida.

O romance demonstra o temor dos regionalistas com as novas práticas e o estilo de vida trazido pelas espaços modernos. Assim, analisando a obra, podemos perceber como a construção histórica do nordestino também possui suas descaracterizações, presente nas cidades (modelos de decadência dos costumes "tradicionais"), com práticas consideras desvirilizantes.




José Lins do Rego – “Usina”. Romance.“Ciclo da Cana do Assucar V”
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1936. 1ª edição. Encadernação original brochura. 392 pp. (R$ 100,00 / 120,00)
Tiragem: 5.000 exemplares (1ª edição)

Usina é uma narrativa descritiva do meio de vida nos engenhos de açúcar e nas plantações de cana do Nordeste. Em 1936, após a publicação dessa obra, José Lins do Rego decretou o fim do "ciclo da cana-de-açúcar".

Usina retoma a história do Moleque Ricardo, a partir de sua prisão com os companheiros grevistas em Fernando de Noronha até o seu retorno ao engenho.

Com pouco mais de estariam no velho Santa Rosa, que Ricardo deixara há oito anos, fugido, como de um presídio, de uma ilha de trabalhos forçados. escapara de lá para não ser alugado e fora pior que isso. Tivera dores que os alugados não sofriam nunca.

É na segunda parte do livro que começa propriamente Usina, quando são narrados os acontecimentos que envolvem o Santa Rosa depois que Carlos Melo, fugindo dos problemas que envolviam o engenho, entrega o seu património a parentes.

O Santa Rosa transforma-se na Usina Bom Jesus. O Dr. Juca sonha com o prestígio, negociando com Zé Marreira, proprietário da Fazenda São Félix, deixa-se levar pela ambição e faz a sua primeira operação desastrosa. As hipotecas contraídas e a pressão da Usina São Félix, na figura do Dr. Luís, terminam por forçar a venda. A enchente do Rio Paraíba, destruindo a antiga propriedade, simboliza o fim de um ciclo. O usineiro retira-se com a família em meio à destruição física dos seus antigos domínios.


José Lins do Rego – Histórias da Velha Totonia.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1936. 1ª edição
(nenhum exemplar encontrado)
Tiragem: 5.200 exemplares (1ª edição)

Trata-se de um livro de literatura infanto-juvenil e, como tal, sempre difícil de ser encontrado, pelo seu uso e, como tal, poucos exemplares se preservavam.



José Lins do Rego – “Pureza”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1937. 1ª edição. 1ª edição. Encadernação original brochura. 347 pp.. (R$ 65,00/150,00)
Tiragem: 5.200 exemplares (1ª edição)

Pureza foi um livro que surpreendeu ao surgir em 1937. Poderia José Lins do Rego renovar-se, depois da série de cinco romances então denominados de Ciclo da cana-de-açúcar? Pôde. Mudou a paisagem física. Saiu em busca de outros mundos, inclusive interiores. Porque Pureza é uma narrativa mais interiorizada. O autor traça bem o personagem central, Lourenço de Melo, inseguro em seu amor pela bela Margarida, e de olhos de uma claridade de porcelana, filha de seu Antônio, o chefe da estação de trem.



José Lins do Rego – “Pedra Bonita”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1938. 1ª edição. Capa de Santa Rosa. Encadernação original brochura. 373 pp. (R$ 100,00/145,00)
Tiragem: 5.200 exemplares (1ª edição)



É um enredo que não saindo da temática principal – fanatismo religioso e cangaceiros – podemos ver uma galeria de personagens e histórias paralelas que nos prendem a atenção de tão bem descrita e interligada. A obra é tão valiosa que até os personagens secundários aparecem, psicologicamente, bem desenvolvidos e trabalhados.
 
Padre Amâncio que foi jovem para Açu, com sonhos de tudo mudar, é o personagem central que dava lugar, algumas vezes à Antônio Bento Vieira, ajudante do padre que a mãe deixou para que o mesmo se fizesse padre também, mas que não houve dinheiro para que tal se concretizasse. Aliás, quem tinha dinheiro em Açu era só Clarimundo, além do comércio, o algodão também lhe dava lucros.

O Major Evangelista, um fiscal que perdeu a esposa e vivia com a sua filha Dona Fausta, uma personagem psicológica de solteirona, que vivia de fazer bordados para fora de Açu e que tinha ataques por falta de sexo/homem. Há também uma descrição sexual, bem atrevida para a época. quando Dona Fausta passa a sonhar e a desejar Antônio Bento, cena em que ela o pega de jeito, mas que não se repete. Aliás Bentinho não era de mulheres, nem o seu irmão Domício.

Açu conhecia a maldição de Pedra Bonita, uma cidade onde homens milagrosos queriam ser como Jesus e Padre Cícero, que levavam o povo às alucinações e fanatismo, a ponto de largar tudo na vida e ir para lá. Cidade com duas pedras enormes como se fossem duas torres de igreja. Açu rejeitava todos os moradores de Pedra Bonita.

A temática sacra é sem dúvida uma das principais, com referência ao fanatismo das religiões incluindo o catolicismo: Ainda que exalte o Padre Cícero por enfrentar bispos e continuar a realizar os seus milagres, exalta também, a figura do padre comum, mas santo, que vive para os pobres, sem vaidade e sem ambição.

Açu era o lugarejo onde despejavam o que se dizia ser o lixo da sociedade. Ali, nem o caminho de ferro conseguiu chegar, pois no dia em que os engenheiros ali apareceram foram destroçados pelo chefe dos cangaceiros, irmão de Bentinho – Aparício.

Pedra Bonita do Araticum com sua lenda da mulher linda que chama os homens para o abismo, também era a pedra dos milagres e dos fanáticos que matavam. Num todo, o romance é a descrição de um mundo rural Nordestino, onde cidades são esquecidas pelo Governo, um mundo de contínua fuga voltando sempre para suas raízes: a religião.

Num discurso indirecto são muitas e muitas cenas diferentes e tantos personagens que não se pode de todos falar.

No sertão são três as vozes de comando, o padre, os cangaceiros e o governo quando sente necessidade de intervir, no mais é uma injustiça sem fim e um morrer sem pedir.

A repetição de cenas descritas é um recurso relevante do autor para que o leitor não se perca e o narrador omnisciente fala por todos e a moda viola, os repentes, as canções que narram as histórias tristes do cangaço, são os atavios que dão ao romance o uso da meta-linguagem com uma grande riqueza descritiva.



José Lins do Rego – “Riacho Doce”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1939. 1ª edição. Capa de Santa Rosa. Encadernação original brochura. 372 pp. (R$ 100,00/145,00)
Tiragem especial, fora do comércio, de 10 exemplares em papel Royal E. F., numerados e assinados pelo autor.

Riacho Doce não repete nenhuma das obras anteriores do seu autor, mas mantém todas as características do escritor com a sua linguagem saborosa e colorida no seu estilo de possante contador de estórias; o documentador profundo e essencial da civilização e da mentalidade nordestina; o mais fecundo inventor de casos e de almas.

O estilo de José Lins do Rego neste romance é uma manifestação soberba de naturalidade e de intimidade com a natureza ou integração na própria natureza exterior. E há que se salientar o processo de análise psicológica, que consiste na repetição sistemática de certos dados. A figura da Mãe Aninha é perfeita como observação da psicologia supersticiosa. Esta e Nô saltam diante dos nossos olhos como criações exactas, inesquecíveis.

Há aqui um fundo lirismo tropical, um instintivismo, um calor humano, um sopro de poesia genuína que faz deste romance de 1939 uma afirmação plena de maturidade artística.

Em Riacho Doce, José Lins une amor e petróleo. Um casal de suecos vem para o Brasil, para Alagoas, e a loura Edna/Eduarda se extasia com a força tropical do Brasil, que ela descobre. Apaixona-se por um mestiço nordestino, Nô, uma das figuras mais empolgantes de toda a ficção de Lins do Rego. O amor de Edna e Nô é o núcleo deste romance. A sueca misteriosa vem descobrir sensualmente a força telúrica do Nordeste rústico, o ritmo popular, os sabores e os cheiros, as formas, as cores, a vida intensa de uma região que é o mundo perene desse grande narrador em contacto amoroso com a vida.

José Lins do Rego dá-nos nesta obra a sua visão possante dos desequilíbrios sociais e dos dramas humanos individuais e colectivos, provocados pelo problema do petróleo em Alagoas. Tudo decorre deste trágico problema da vida contemporânea no Brasil dessa época.. As marés sucessivas de entusiasmo, de desapego às tradições, provocadas pelo engodo da riqueza, e das desconfianças supersticiosas e as cóleras nascidas das desilusões naquela mansa terra de pescadores, são descrições de psicologia colectiva das mais vivas e reais que o romancista fez.

E páginas como a descrição dos primeiros tempos de Edna no Riacho Doce ou capítulos como o do estouro da Mãe Aninha, em que a maldição é criada com uma intensidade trágica maravilhosa, são verdadeiramente trechos geniais.


José Lins do Rego – “Água Mãe”. Romance.
Rio de Janeiro, Organização Simões, 1941. 1ª edição. Introdução de Álvaro Lins e Roberto Alvim Corrêa, com ilustrações em preto e branco de Luis Jardim. 345 pp. (R$ 90,00/100,00)

Prémio Felipe d’Oliveira (1941).

Este é o primeiro romance de José Lins do Rego, que não tem como cenário o Nordeste, e sim Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Apresenta a história de três famílias, que seriam a representação de três camadas sociais diferentes: a família rica, a família média e a família pobre e de criaturas que desejam fugir das suas condições naturais, que procuram desligar-se dos seus círculos sociais.



José Lins do Rego – “Fogo Morto”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1943. 1ª edição. Prefácio de Otto Maria Carpeaux. 363 pp. (R$ 90,00 / 250,00)

Como romance de feição realista, esse livro procura penetrar a superfície das coisas e revelar o processo de mudanças sociais por que passa o Nordeste brasileiro, num largo período que vai desde o Segundo Reinado, incluindo a Revolução Praieira e a Abolição, até as primeiras décadas do século XX.

O tema central de Fogo Morto é o desajuste das pessoas com a realidade resultante do declínio do esclavagismo nos engenhos nordestinos, nas primeiras décadas do século XX. O romance conta a história de um poderoso engenho – Engenho Santa Fé localizado na zona da Mata da Paraíba – desde a sua fundação até o declínio, quando se transforma em "fogo morto", expressão com que, no Nordeste, se designam os engenhos inactivos.

É considerado a obra-prima de José Lins do Rego.


José Lins do Rego – “Pedro Américo”. Conferências.
Rio de Janeiro, CEB – Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1943. Coleção Conferências – Série Maná . 1ª edição.
(nenhum exemplar encontrado)



José Lins do Rego – “Gordos e Magros”. Artigos.
Rio de Janeiro, Livraria Editora da Casa do Estudo, 1943. Coleção Ensaios.1ª edição. Encadernação original brochura. 351 pp.(R$ 175,00 / 350,00)



José Lins do Rego – “Poesia e Vida”. Ensaios.
Rio de Janeiro, Editora Universal, 1945. 1ª edição. Capa de Geraldo de Castro. Encadernação original brochura. 261 pp.(R$ 350,00)

Trata-se de um dos livros mais difíceis da bibliografia do autor.



José Lins do Rego – “Conferência no Prata: tendências do romance brasileiro – Raul Pompeia e Machado de Assis”. Conferências.
Rio de Janeiro, CEB – Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, 1946. Coleção Conferências – Série Maná n.º 17. 1ª edição. Encadernação original brochura. 105 (2) pp.(R$ 45,00)

Edição das conferências lidas no Colégio Livre de Estudos Superiores, de Buenos Aires, em Outubro de 1943. Contem referências interessantes para a história da literatura brasileira.



José Lins do Rego – “Euridice”. Romance.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1947. 1ª edição. Capa de Santa Rosa. Encadernação capa dura com sobrecapa. 284 pp.(R$ 75,00)

Prémio Fábio Prado (1947).



José Lins do Rego – “Bota das Sete Léguas”. Viagens.
Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1947. 1ª edição. Encadernação capa dura com sobrecapa. 194 pp. (R$ 60,00/80,00)


José Lins do Rego – “Homens, Seres e Coisas”
Rio de Janeiro, Ministério Educação Saúde, 1952. Os Cadernos de Cultura. 1ª edição. Encadernação capa dura.. 77 pp. (R$ 8,00)



José Lins do Rego – “Cangaceiros”.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953 1ª edição. Romance. Capa de Santa Rosa. Encadernação original brochura com sobrecapa.. 315 pp. (R$ 40,00 / 100,00)

O romance Cangaceiros dá continuidade a história da família de Bento, da obra Pedra Bonita, depois que os beatos são dizimados pelas tropas.

"Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos castigados, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho.".

A história desenvolve-se entre a vida de Bento, a sua amizade com os vizinhos, o seu namoro com Alice, a notícia das aventuras do irmão, as pragas da mãe que enlouquece, e a esperança de Custódio em ter vingada a morte do filho pelos cangaceiros.

A angústia brasileira determinada pela queda do colonialismo, a industrialização incipiente, a ânsia de renovação. Esses são os temas centrais desta obra que completa o ciclo "O Cangaço" de José Lins do Rego.


José Lins do Rego – “A Casa e o Homem”.
Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954 1ª edição Colecção Rex vol. 4 . Brochura com sobrecapa. 230 pp. (R$ 50,00)



José Lins do Rego – “Meus Verdes Anos”. Memórias.
Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1956, 1ª edição. Encadernação original brochura. Ilustrações de Luís Jardim. 351 pp. (R$ 90,00)



José Lins do Rego – “Gregos e Troianos”.
Rio de Janeiro, Livraria São José, 1957. 1 ª edição. Encadernação original brochura. 182 pp. (R$ 40,00 / 65,00)


José Lins do Rego – “Presença do Nordeste na Literatura Brasileira”.
Rio de Janeiro, Ministério Educação Saúde, 1957. Os Cadernos de Cultura. 1ª edição.. (R$ 180,00)




José Lins do Rego – “O Vulcão e a Fonte”. Crónicas, ensaios e notas de viagem.
Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1958. 1ª edição. Encadernação original da editora. 315 pp. (R$ 75,00)



José Lins do Rego – “Dias Idos e Vividos”.
Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1981. 1 ª edição. Encadernação original brochura. 460 pp. (R$ 40,00)


Com este artigo completo o ciclo sobre José Lins do Rego, escritor brasileiro com uma vasta produção literária na qual traça o retrato de uma das páginas importantes da própria história do Brasil.

Merece ser lido, para isso basta uma edição qualquer, mas para os apreciadores justifica ser coleccionado, aqui sim as 1ª edições são fundamentais.

Saudações bibliófilas

(1) Fiz uma busca exaustiva na Estante Virtual  para ajuizar da oferta das 1ª edições dos livros de José Lido Rego, visto esta ser a maior rede de “sebos” do Brasil. Claro que outras fontes foram estudadas, mas esta foi a principal.

Tomei como referência os descritivos elaborados pelos diversos “sebos”, confrontando-os com os da Biblioteca Nacional do Brasil mas procedi a uma homogeneização dos diversos critérios para dar a informação mais detalhada possível.

Os preços aqui referidos reflectem os que aqui se praticam, mas quando há grande disparidade coloquei os valores mínimo e máximo.

Estas disparidades nem sempre correspondem ao estado do livro, pelo que se deverá pensar em critérios específicos dos seus vendedores ou a procura mais intensa em certos Estados no Brasil. (a resposta pertence-vos...)

Uma palavra muito especial para “O Buquineiro” (categoria: Livreiros virtuais) pelo seu grande acervo em livros deste autor e, do qual, utilizei algumas das suas fotografias das capas dos livros, em 1ª edição, pelo que deixo aqui o meu agradecimento especial.


5 comentários:

SOS DIREITOS HUMANOS disse...

DENÚNCIA: SÍTIO CALDEIRÃO, O ARAGUAIA DO CEARÁ – UMA HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONHECE PORQUE JAMAIS FOI CONTADA

“As Vítimas do Massacre do Sítio Caldeirão
têm direito inalienável à Verdade, Memória,
História e Justiça!” Otoniel Ajala Dourado

O MASSACRE DELETADO DOS LIVROS DE HISTÓRIA

No município de CRATO, interior do CEARÁ, BRASIL, houve um crime idêntico ao do “Araguaia”, foi a CHACINA praticada pelo Exército e Polícia Militar em 10.05.1937, contra a comunidade de camponeses católicos do SÍTIO DA SANTA CRUZ DO DESERTO ou SÍTIO CALDEIRÃO, cujo líder religioso era o beato “JOSÉ LOURENÇO GOMES DA SILVA”, paraibano negro de Pilões de Dentro, seguidor do padre CÍCERO ROMÃO BATISTA, encarados como “socialistas periculosos”.

O CRIME DE LESA HUMANIDADE

O crime iniciou-se com um bombardeio aéreo, e depois, no solo, os militares usando armas diversas, como metralhadoras, fuzis, revólveres, pistolas, facas e facões, assassinaram na “MATA CAVALOS”, SERRA DO CRUZEIRO, mulheres, crianças, adolescentes, idosos, doentes e todo o ser vivo que estivesse ao alcance de suas armas, agindo como juízes e algozes. Meses após, JOSÉ GERALDO DA CRUZ, ex-prefeito de Juazeiro do Norte/CE, encontrou num local da Chapada do Araripe, 16 crânios de crianças.

A AÇÃO CIVIL PÚBLICA PROPOSTA PELA SOS DIREITOS HUMANOS

Como o crime praticado pelo Exército e Polícia Militar do Ceará é de LESA HUMANIDADE / GENOCÍDIO é IMPRESCRITÍVEL conforme legislação brasileira e Acordos e Convenções internacionais, a SOS DIREITOS HUMANOS, ONG com sede em Fortaleza – CE, ajuizou em 2008 uma Ação Civil Pública na Justiça Federal contra a União Federal e o Estado do Ceará, requerendo: a) que seja informada a localização da COVA COLETIVA, b) a exumação dos restos mortais, sua identificação através de DNA e enterro digno para as vítimas, c) liberação dos documentos sobre a chacina e sua inclusão na história oficial brasileira, d) indenização aos descendentes das vítimas e sobreviventes no valor de R$500 mil reais, e) outros pedidos

A EXTINÇÃO SEM JULGAMENTO DE MÉRITO DA AÇÃO

A Ação Civil Pública foi distribuída para o Juiz substituto da 1ª Vara Federal em Fortaleza/CE e depois, para a 16ª Vara Federal em Juazeiro do Norte/CE, e lá em 16.09.2009, extinta sem julgamento do mérito, a pedido do MPF.

RAZÕES DO RECURSO DA SOS DIREITOS HUMANOS PERANTE O TRF5

A SOS DIREITOS HUMANOS apelou para o Tribunal Regional da 5ª Região em Recife/PE, argumentando que: a) não há prescrição porque o massacre do SÍTIO CALDEIRÃO é um crime de LESA HUMANIDADE, b) os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO não desapareceram da Chapada do Araripe a exemplo da família do CZAR ROMANOV, que foi morta no ano de 1918 e a ossada encontrada nos anos de 1991 e 2007;

A SOS DIREITOS HUMANOS DENUNCIA O BRASIL PERANTE A OEA

A SOS DIREITOS HUMANOS, como os familiares das vítimas da GUERRILHA DO ARAGUAIA, denunciou no ano de 2009, o governo brasileiro na Organização dos Estados Americanos – OEA, pelo DESAPARECIMENTO FORÇADO de 1000 pessoas do SÍTIO CALDEIRÃO.

QUEM PODE ENCONTRAR A COVA COLETIVA

A “URCA” e a “UFC” com seu RADAR DE PENETRAÇÃO NO SOLO (GPR) podem localizar a cova coletiva, e por que não a procuram? Serão os fósseis de peixes do “GEOPARK ARARIPE” mais importantes que os restos mortais das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO?

A COMISSÃO DA VERDADE

A SOS DIREITOS HUMANOS busca apoio técnico para encontrar a COVA COLETIVA, e pede que o internauta divulgue a notícia em seu blog/site, bem como a envie para seus representantes no Legislativo, solicitando um pronunciamento exigindo do Governo Federal a localização da COVA COLETIVA das vítimas do SÍTIO CALDEIRÃO.

Paz e Solidariedade,

Dr. Otoniel Ajala Dourado
OAB/CE 9288 – 55 85 8613.1197
Presidente da SOS – DIREITOS HUMANOS
Editor-Chefe da Revista SOS DIREITOS HUMANOS
Membro da CDAA da OAB/CE
http://www.sosdireitoshumanos.org.br
sosdireitoshumanos@ig.com.br
http://twitter.com/REVISTASOSDH

Angelo disse...

Caro Rui,

Parabéns por mais este excelente artigo que se constitui em preciosa fonte de consulta.

Abraços de além-mar,

Angelo

rui disse...

Caro Angelo,

Mais uma vez os meus agradecimentos pelo seu comentário.

Os escritores brasileiros sempre me fascinaram, desde a minha juventude, pela sua escrita.

Hoje vejo-os “com outros olhos”, pois que, para além de continuar a admirar a sua qualidade, forma e mestria como retratam o povo brasileiro e a sua história, considero também o aspecto coleccionista e bibliófilo dos mesmos.

É esta a razão por que tento elaborar, o melhor que posso e sei, estes modestos e “toscos” estudos da sua obra.

É a minha maneira de lhes prestar a minha homenagem.

Um abraço amigo deste lado do oceano.

Anónimo disse...

Sou o desenvolvedor do portal de sebos Livronauta, estou contatando blogs e sites para auxiliar na divulgação do projeto que está a beira de completar o 1 ano.
No seu site existem vários links de livrarias, seria um enorme prazer ter um link para meu portal na página de vocês.
Caso queiram conhecer um pouco mais sobre o portal visite nossa página de imprensa http://www.livronauta.com.br/Imprensa.html e o sobre nós.


Alejandro Rubio

alejandro.f.rubio@gmail.com

rui disse...

Caro Alejandro Rubio

Obrigado pela sua informação que desconhecia.

Já coloquei o link para o vosso site.